A moda no cinema e o cinema na moda

Marie Rucki, a poderosa, inteligente e brilhante senhora da moda francesa me deixou embasbacada em uma recente palestra sobre moda e cinema. Foi uma lição e tanto para mim, já que trabalho com as duas vertentes. Entendo quando ela fala sobre a atitude da moda em relação ao cinema. O cinema depende da moda e vice-versa. Na linguagem de moda, quando falamos de looks estamos falando de estilo. No cinema quando falamos de vestimentas estamos falando em vestir um personagem com uma roupa. Isso não significa que essa roupa faça o personagem. Antes de tudo, existe a escolha do ator que dará vida a ele. Depois vêm todos os complementos do ambiente que o circunda e a roupa é mais do que necessário para essa composição, mas não é exatamente a coisa mais importante no todo. A decoração, os objetos pessoais, entre outras coisas, fazem o personagem nascer.

Marie citou um dos filmes importantes para a inspiração de muitos estilistas, fotógrafos de moda e designers atualmente: o documentário “Grey Gardens”, de 1975, dos diretores Albert e David Maysles.
Em 1973, as manchetes dos jornais americanos focaram sua feroz atenção em um escândalo banal mas que envolvia a tia e a prima-irmã (as duas ex-socialites) de nada mais nada menos que Jackie Keneddy. Alegando falta de condições sanitárias da mansão decadente no balneário de luxo de East Hampton, onde elas moravam, as autoridades locais tentaram expulsar mãe e filha de sua morada.

Big Edie e Little Edie, como elas eram conhecidas, acabaram sendo salvas pela “prima rica”. Dois anos depois, elas abriram suas vidas para os irmãos Maysles. O documentário retrata o isolamento e decadência dessas duas mulheres que estão em condições praticamente desumanas há mais de vinte anos. E em relação ao figurino deste filme, o mais interessante é a permanência da alma luxuosa em plena pobreza. O auge dessas duas mulheres foi nas décadas de 40 e 50, momento em que elas foram muito chiques e lindas. Já nos anos 70, quando o documentário foi filmado, o que se vê é que elas aproveitam o que restou de todos os luxuosos vestidos, casacos de pele, sapatos, broches, maiôs, entre outras coisas, e transformam isso em uma outra linguagem de moda, adaptando pedaços de roupas e juntando peças. Little Edie faz de seu marcante turbante um “must have”. Com alfinetes, ela constrói uma saia de formas totalmente inusitadas, sensacional e divertida. É um resgate da memória do luxo em que elas viveram, praticado com o que está ao alcance… Um exercício e tanto e um resultado muito interessante. É o que eu chamo de “moda-mendigo”.

Eu sempre observei como essas pessoas compõem seus looks, sua aparência, seu estilo. Eles trabalham esse visual com o que está disponível ali no momento, seja um cobertor velho amarrado simetricamente por cima de uma calça, sobreposta por uma bermuda, com um saco plástico amarrado no pé como sapato e assim vai… Uma criatividade espontânea porque geralmente essas pessoas não têm referência de moda, elas simplesmente se jogam no modelo. E é muito legal que exista esse valor porque essas pessoas podem servir como referência para todos nós, principalmente por conta de sua situação social. Ninguém sabe se um dia vai ficar pobre de uma hora para outra, portanto o mais importante não é o apego aos bens e sim a herança do que aprendemos com a vida.


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