Um calendário muito louco

O célebre estilista Yves Saint Laurent foi o primeiro a apresentar uma coleção prêt-à-porter em um desfile. Costanza Pascolato, uma das maiores mestres no assunto moda, me disse que no começo eram somente apresentados desfiles de alta-costura das maisons mais importantes como Chanel e Dior, das quais, inclusive, Yves Saint Laurent foi estilista por algum tempo. Eram poucos desfiles, por isso era bem mais fácil e muito agradável viajar e acompanhar a então “mini maratona”.
Com o lançamento dos desfiles de prêt-à-porter nos anos 1970, a coisa mudou de rumo e com o passar dos anos veríamos o surgimento das então fashion weeks. Hoje em dia, semana de moda existe no mundo inteiro. Aqui, nos EUA, na Europa, na America Central, Ásia, em qualquer lugar! São tantas fashion weeks que leva tempo para conseguir se atualizar. E tem que ser pela internet, é claro. A rede virou o melhor, mais fácil e prático veículo para se acompanhar as semanas de moda ao redor do globo.
Imagine os jornalistas que viajam para cobrir as semanas de moda! Acho que só um robô seria capaz de cumprir esse insano roteiro mundial. Quem é que, em sã consciência, aguenta viajar tanto, dormir pouco (porque é lógico que alguns se jogam nas festas pós desfile, hehehe!), comer mal e trabalhar que nem um camelo indo de tenda em tenda, de um lado pro outro, às vezes na chuva, na neve, num sol escaldante?
Afê, não queria ser essa pessoa não, mas respeito os que conseguem. Tem de ter muita paciência e dedicação porque o trabalho continua intenso depois das temporadas. Afinal, é quando editores, jornalistas, stylists e fotógrafos têm de criar as imagens que representem o conceito criado para a coleção e transformá-lo numa linguagem um pouco menos fantasiosa e comercial, sem perder o glamour do que foi visto na passarela.
Gente, não é mole e muito menos barato. Por isso que, falando em números, a indústria da moda gera muito emprego e é muito cara. Tudo tem alto custo e as pessoas geralmente não pensam muito nisso. As semanas mais importantes, que têm maior visibilidade, são as de Paris, Milão, Londres e Nova York, que são as cidades de onde saem as maiores tendências mundiais e estilistas bombados.
Mas a matemática deste assunto é um pouco mais complicada. Existe a divisão de estações, prêt-à-porter, alta-costura e moda masculina. Sem falar que, no meio de tudo isso, há também as feiras de acessórios e tecidos, que fazem papel importante e influenciam muito no que é mostrado nos desfiles.
Em janeiro e julho, acontecem os desfiles de alta-costura e coleções masculinas. Em março e setembro, as coleções de prêt-à-porter. Isso no calendário oficial, mas muitas vezes as agendas destas semanas acabam se cruzando, fazendo com que em alguns desfiles aconteçam quase ao mesmo tempo em dois países diferentes. Aqui no Brasil não temos alta-costura, portanto, desfilamos só prêt-à-porter em janeiro e junho. Nosso calendário, para quem trabalha com moda, é o mais apertado. A maioria dos estilistas tem pouco tempo entre as coleções de verão e inverno. Tipo loucura!! E algumas de nossas modelos preferidas trocam nosso prêt-à-porter pelos desfiles de alta-costura e alguns modelos, gatos, malhados e lindos de se ver, vão para as coleções masculinas da Europa. Sacanagem!
Imagine Costanza Pascolato, que acompanha esse roteiro há 40 anos… Só levando uma vida de nômade e tendo muita saúde, pique e paciência pra ver todos os desfiles que estão no calendário. Quando começou a cobrir os desfiles de Paris, Milão e algumas vezes Londres, Costanza achava a maior graça porque era uma um circuito mais fechado, com pessoas hiper selecionadas, existia uma diversão e é lógico que é sempre gostoso viajar pra Europa, mesmo essa viagem durando mais ou menos 40 dias. Tipo delicia! Juro que adoraria estar na pele dela nessa época. Que glamour!
Carine Roitfeld da “Vogue” francesa e Anna Wintour da “Vogue” americana vão somente aos desfiles que interessam e nos quais a revista tem de marcar território, porque elas podem, tá meu bem!
Ultimamente, em algumas ocasiões, é a internet que substitui a viagem. E o mais impressionante é que muitas vezes os desfiles podem ser acompanhados em tempo real porque são divulgados pelos milhões de blogueiros que estão espalhados por aí. Eles conseguem se infiltrar nos desfiles e trazer a informação mais rápido do que o tempo que uma modelo leva para trocar de roupa. É tão surreal que mal acabou o show e você já tem detalhes do melhor sapato, da bolsa, do que for, mesmo que com imagens toscas. Mas está tudo ali. E, às vezes, muito antes dos sites especializados publicarem.
Godfrey Deeny, o “Sartorialist”, e Yvan Rodic do “Face Hunter” são blogueiros de qualidade e que eu admiro pelo estilo sofisticado e olhar moderno. Eles acompanham tudo por dentro e por fora das semanas de moda. Como eles trabalham para veículos de internet eles podem ficar quantos meses quiserem viajando porque o trabalho deles podeser feito de qualquer lugar, só com uma câmera fotográfica e um computador. Chique, né?
Ainda bem, também, que nosso cérebro tem espaço suficiente para armazenar essas milhões de informações que somos obrigados a digerir para fazer melhor o nosso trabalho. Digo nosso porque também trabalho com isso e muitas vezes não tenho tempo de acompanhar os desfiles daqui, mas tenho que saber tudo que rolou e a internet é a melhor e mais rápida opção.
Se por acaso não posso ir ao desfile de alguns dos meus amigos estilistas que amo e admiro, tenho, felizmente, os blogs e os sites que cobrem os desfiles pra ver as fotos, analisar detalhes de make e acessórios. Aí, eu posso argumentar, elogiar e comentar. Hummm, mais ou menos… Na verdade eu tenho tudo isso à mão, mas, em muitas ocasiões, quando não vou a um desfile que fui convidada, sou eu mesma que saio perdendo.
Todo desfile é feito para mostrar uma nova coleção, um novo desejo de consumo, uma nova tecnologia em tecido, uma nova estampa, um acessório imperdível, a tal da tendência da nova estação. Ele é todo elaborado conceitualmente e comercialmente. Tudo tem uma razão. A fashion week é um círculo de energia que vai além dos desfiles, onde todos estão vendo as mesmas coisas, falando do mesmo assunto. O que eu perco por não estar presente naquele momento, muitas vezes mágico, é a emoção desse conjunto da obra que é um desfile, uma semana de moda.
Ver tudo de perto, poder perceber detalhes que, às vezes, uma foto não mostra, sentir principalmente a emoção da trilha e a beleza, a atitude das meninas e meninos ou quem quer que seja que estiver representando e servindo de cabide para aquela roupa, é muito diferente. Não tem comparação. Tudo bem que chega no fim da semana você está acabada, sem energia, mas o importante é o que fica: a lembrança e a alegria que marcam nossa mente e criam o desejo do que vimos. E, provavelmente, vamos sair correndo atrás destes objetos de desejo quando os tais chegarem às lojas não é assim mesmo que funciona?.

(c.Lara Gerin/glamurama)
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